As definições de pé frio foram atualizadas


Um post mais para guardar. Pra mim. Que vou realizar um sonho. De ver ao vivo os jogos olímpicos. Das coisas dos jogos que eu mais gosto: atletismo, ginástica e vôlei feminino. Planejei cuidadosamente o que ia assistir. Escolhi alguns esportes por curiosidade (tipo remo). O resto eu sabia tudo. Comprei na primeira leva. Aquela do sorteio e tal. Não consegui ginástica. O resto planejei assim:

– Atletismo salto com vara para mulheres. Isinbayeva é uma das grandes personalidades esportivas do meu tempo. Tenho um crush violento nela. Mito. De quebra tem a Fabiana Murer, chance de Brasil no pódio. Duplo fuén.

– Vôlei feminino bronze. Essa geração maravilhosa envelheceu. Algumas já se aposentaram. Outras estão se despedindo. Nenhuma novata é uau. Acho que não vai ter ouro. Uma prata ou um bronze. Apostei que vinha bronze. Nem preciso falar o que aconteceu.

– Futebol feminino ouro. Chegou a vez, né? Coroação total de Marta e Cristiane. A seleção dos EUA deve estar meio envelhecida. Faremos uma final histórica. De quebra vejo a Hope Solo e aquela atacante incrível. Sou fã demais da seleção americana. Pelamor. Me sobraram as suecas retranqueiras. Vou passar o jogo todo de olho na técnica.

Enfim. Não faça planos. A gente põe e os deuses dispõem 😜

Sobre deixar desenrolar

Minha própria experiência do Onze de Setembro foi anômala porque não havia uma televisão por perto (…) Três dias mais tarde, das onze da noite às três da manhã, fiquei sentado numa sala refrigerada da rede de tv abc, em que podia, ao lado do meu colega David Halberstam, também de Nova York, falar por vídeo com Maya Angelou e dois outros escritores de fora da cidade, enquanto aguardávamos para oferecer a Ted Koppel uma perspectiva literária sobre os ataques da terça-feira de manhã. A espera não foi breve. Cenas dos ataques, das torres desmoronando, da fumaça, eram mostradas sem parar, intercaladas por longos segmentos sobre o custo emocional para cidadãos comuns e seus filhos impressionados com tudo aquilo. De vez em quando, um ou dois de nós tínhamos sessenta segundos para dizer algo como escritores antes de a cobertura voltar para as sofridas entrevistas sobre a carnificina, dadas por familiares e amigos de pessoas mortas ou desaparecidas. Falei quatro vezes em três horas e meia. Na segunda vez, me pediram para confirmar relatos generalizados de que os ataques tinham mudado profundamente a personalidade dos nova-iorquinos. Eu não tinha como confirmar isso. Disse que vi rostos sombrios e não raivosos, e falei sobre pessoas em minha vizinhança comprando roupas para o outono quarta-feira à tarde. Ted Koppel, em sua resposta, deixou claro que eu tinha fracassado em desempenhar a tarefa pela qual esperei metade da noite. Franzindo as sobrancelhas, disse que sua impressão era bem diferente: para ele, os ataques tinham mesmo mudado profundamente a personalidade de Nova York“. (Jonathan Franzen. Só liguei para dizer eu te amo, 2008)

Tô nessa ainda ler ensaio e não tenho ideia de quando vou sair disso. Lendo esse, anteontem, me pareceu pertinente compartilhar o trecho. Porque estamos meio chafurdados em analisar significados das coisas quando elas estão acontecendo ou quando elas ainda vão acontecer. E eu acho que mais do que precipitado, essa ânsia de extrair logo os significados enfraquece demais. Porque o evento analisado não se realiza, parece. Claro que ele se realiza. Mas fica meio truncado no meio das análises e contra-análises etc. A Rafaela Silva ganhar medalha de ouro. Não são two steps as coisas. Uma mulher negra e pobre ganha uma medalha e todas as meninas negras estão mais empoderadas. Há uma teia mais complexa. Deixa a Rafaela falar. E ela fala. É analisada. Conta do insuportável preconceito que sofreu. Agradece a comunidade. Faz planos com a namorada. O país todo fica feliz. É só o que a gente sabe. Brasileiro pára tudo pra assistir medalha e se ufana um pouco. E daí reclama que o governo não investe. E faz conjecturas de quantas medalhas teríamos se o governo investisse. É o script. Claro que uma história de superação inspira todo mundo. Mas estamos saindo da inspiração direto para uma outra coisa. Mais definitiva. A medalha muda tudo, uns dizem. A medalha não muda nada, respondem. E aí esses dois grupos começam a brigar e a vida da moça se torna munição. Já não sei quantas vezes recomendei o filme Ruth em Questão. Porque esse cuidado deve ser um pilar da militância, eu penso. Não usar indivíduos para propagandear nossas causas. É sempre cruel. Tem sempre o avesso. Outra coisa. Todas as análises dizem uma mulher negra ganhou uma medalha. E não é preciso. As imagens são inequívocas. A militância precisa experimentar outras linguagens. Uma reportagem de fofoca tem uma linguagem. Vai comemorar a medalha na Disney. Só. Não precisa de análise. Há significados, claro. Não precisam ser “traduzidos” em militantês. As fotos e vídeos da luta também tem uma linguagem. Confie nas pessoas. Elas entendem. No mais, quase não li análises. Meu leitmotiv foi um tuíte do Antonio Prata. Ele disse mais ou menos. “Rafaela Silva é ouro. Que bom ser de esquerda“.

E não. Não tem nada a ver.

Quadro Vivo em Stars Hollow <3

4a Temporada. 7o Episódio.

Eu nem fui atrás de saber em qual temporada que era. Porque o impacto que me causou esse episódio foi material. Eu quis fazer um quadro vivo, com meus alunos. Propus, para a semana de licenciatura. Ninguém botou fé. Apenas uma professora de Educação Artística aposentada (que me ajudou horrores). Queria fazer igual da série. Um quadro após o outro. Tínhamos 23 classes, era inviável. Propus fazermos ao ar livre. Um museu ao ar livre. Mimimi da direção, não cabe, não pode usar estacionamento. O clube da cidade estava alugado para uma palestra da mesma semana. Me cederam o clube por uma noite. Fui medir o clube. Não fui sozinha, levei minha mãe. Dividimos todo o espaço interno em 23 stands (“molduras”, no caso). Os alunos pegaram um fogo que eu nunca imaginei. Padronizei os stands. Todos tinham que estar empacotados de lona preta. Chegamos cedo. Minha mãe inclusa. Forramos um salão gigante. Os alunos do Gaughin levaram um peixe imenso, de verdade. Subornamos o dono da lanchonete. O peixe tinha que passar o dia no freezer, que estava com as bebidas que seriam vendidas à noite. Os alunos do Segall levaram milhares de pomadas e vic vaporub. “Passaram” no stand deles. Era um quadro com um enfermo, queriam emular o cheiro da morte. Ao lado tinha um Hopper, do outro lado um Munch. Ambos fediam junto. Reclamações infinitas. Mas nada se compara à chegada da Última Ceia. O quadro simplesmente não cabia. Pensei em improvisar mais um stand. Ainda não cabia. Tivemos que fazer no meio do salão. Não me lembro onde os alunos conseguiram uma escada quase de bombeiros. GRAMPEAMOS a lona preta NO TETO. Eu jamais abriria mão do efeito de moldura. Quando “abrimos” o museu (sim, os quadros funcionaram simultaneamente – 23, veja bem), as pessoas não sabiam o que fazer. Ficaram embasbacadas. O presidente da Fundação, da qual a faculdade fazia parte, me puxou pelo braço quase bravo. “Menina, quando você for fazer um negócio assim, avisa com antecedência para eu poder divulgar da maneira adequada“. Os alunos amaram fazer. Sofreram, porque teve premiação. Choraram (Lição de Anatomia), xingaram (A Última Ceia, Frida Kahlo Pegando em Armas). Outros fizeram mal feito e estouraram as bexigas do cenário (O Clube da Jardinagem/Botero). Teve graça também. Aluno vestido de cachorro nA Refeição dos Camponeses (Le Nain). Aluna vestida de gato em Mulata com Gato Preto (DiCavalcanti). Teve vinho de verdade nO Triunfo de Baco. Fingi que não vi. A coordenadora pedagógica não teve a mesma bossa. Meu favorito foi esse do vídeo. Lição de Anatomia do Dr. Tulp. Era a minha turma favorita naquele ano (Biologia, veja você). Ontem falei sobre o negócio de ser/não ser educadora. É isso. Acho que a gente fica muito afoito para mostrar coisas para os alunos. Ainda mais alunos que tiveram uma formação muito carente de capital cultural. Sempre faço isso. Coloco quadro em slides. E conto de Guimarães Rosa em alguma disciplina que eu acho que encaixa. Coloquei até um ensaio do David Foster Wallace na minha disciplina de Classe Social. Aquele do navio. Enfim. Não quero também dizer que sou *a* educadora nem nada. Tô meio Luke. Se não querem mais que a gente faça isso, foda-se. Dá um trabalho lancinante. E é isso. Eu dou o que eu tenho. Pois é. Esses quadros são os que eu gosto. Teve um Portinari perdido no meio. Porque, né? Não ia deixar de fora. Mas não gosto muito não. Enfim. Foda-se. Mas que incrível ver esse episódio hoje. Acabei vendo todos os vídeos (fiz um pra cada turma). E me emocionando demais. Se A Lição de Anatomia suscita debates sobre religião X  ciência, o que eu devo fazer? Fingir que nunca existiu esse debate? Deixar os pais decidirem se os filhos devem ver ou não ver um quadro do Rembrandt? Enfim. Que bom que tem gente disposta a entrar nesse debate. Porque pra mim é o caso mesmo de descansar o estojo e encarnar o Luke. Bando de caipiras. Fodam-se.

Trump


Tem uma coisa que eu ando pensando e anda me incomodando. Que é o fato de que as pessoas estão me soando contraditórias. Pode ser que eu também esteja. Pode ser pior. Pode ser que eu esteja sendo meio blasé nas minhas conversas. O que eu não quero de jeito nenhum.

Enfim. Hoje circulou um cartaz dizendo que “professor não é educador”. E o pessoal de esquerda chiou. E não tiro a razão porque obviamente o cartaz é parte dessa patética (porém perigosa) campanha de escola sem partido. Nem vou falar disso. Porque uma coisa óbvia nesses debates é que quem os conduz não sabe mais o que é uma escola nem uma universidade brasileira. E muita gente legal tem tentado explicar a multiplicidade do sistema. Mas enfim. O cartaz era pra isso aí. Queria dizer que os filhos da pátria não devem ser educados mas professorados. Sei lá o que significa.

O caso é que uma das grandes dúvidas que eu tive na vida foi a respeito disso. Eu cresci temperando meu toddynho com “hey, teacher, leave the kids alone”. E Bourdieu estava muito, muito na moda quando eu me graduei. E eu ensino meus alunos que a escola não liberta, ela reproduz as desigualdades. Claro que também dou a visão durkheiminiana de educação. Porque eu não sei o que as pessoas acham que se passa numa aula de sociologia. Mas a gente dá todo mundo. Bourdieu, entretanto, é um autor mais atual e várias análises contemporâneas acabam usando os seus conceitos. Ele é um autor importante. Não sei o que seria do Bourdieu na escola sem partido. Dá, não dá, corta uns pedaços? Mas eu tenho isso aí. De detestar o meu papel na sala de aula a priori. E discuti-lo com os alunos o tempo inteiro. Tenho PAVOR de me pensar como educadora. Quem me acha educadora é uma madame tomando chá. A Emilly Gilmore. “Você precisa dar exemplo para essa garotada, Mary W., você não é apenas uma professora”. Enfim. Esse papo educadora me remete ao conservadorismo.

Por que? Porque seria o pensamento quase “intuitivo”.  Professor=educador. E me parece que isso foi um pouco desmontado já. E aí eu chego no ponto do post. Nós, de esquerda, trabalhamos muito esse “contra-intuitivo”. Pegamos os saberes estabelecidos e desmontamos. Nossas ideias, muitas vezes, precisam de elaboração justamente por isso. Então, ficamos viciados no desmonte. E hoje estamos num momento, me parece, de tanto desmonte, que as ideias podem se transformar em qualquer coisa. Sem qualquer risco. Porque desmontamos também qualquer autoridade sobre cada ideia. Outro dia entrei num “debate”. Sobre uma charge da Graça Foster. A charge era uma paródia das imagens de protestos feministas. Trocaram o “eu não mereço ser estuprada” do movimento por “eu não mereço ser investigada”. Na charge a Foster estava nua e o rosto dela mostrava uma mulher idosa. Quem postou a charge, gostou. E disse que não achava machista. Bem, eu expliquei que era machista e dei várias razões. A pessoa continuou dizendo que não era. Eu expliquei de novo. A pessoa disse que discordávamos e que o meu feminismo não era o dela. Veja que equívoco. Ela achou que estava num debate comigo. E não estava. Eu estava EXPLICANDO para ela. Que maravilha o mundo conectado. Você está ali, falando uma groselha, encontra uma especialista no assunto e tem uma aula grátis. Mas ela não viu assim. Ela considera até que venceu o debate, vai ver. E aí a gente fica olhando, né? Porque quão antipático pode ser isso que eu falei de aula grátis etc.? É muito. E aí temos que aceitar os termos. Porque nós criamos os termos. Então meus 20 anos de pesquisa e ensino não podem ser usados. E eu não usei. Mas no dia seguinte quero ser educadora? É esquisito. E esse desmonte serve à direita, à esquerda, ao anarquismo. Pega quem quer. Qual parte do argumento?, você pode perguntar. Qualquer uma. Cada um pega um pedaço qualquer.

Digo isso mais pelo Trump mesmo. Porque eu tenho lido umas entrevistas esquerdinhas que simplesmente não conseguem se opor ao Trump. Porque foram pegos no desmonte e encurralados por ele. Daí colocam o Trump como um outsider. Listam como qualidade ele negociar com Putin (!?!). E não podem teoricamente combatê-lo. Porque desmontaram o sistema político norte-americano. Espertos que são, descobriram que os democratas também tem como plataforma a hegemonia dos EUA. E aí está comum ler debates sobre prós e contras do Trump. Tão se acostumando ao Trump. Ele não tem causado mais horror. Vai ficar cada vez mais comum na paisagem. (vale falar das análises brasileiras. que criou o padrão eleição de 2014. todas as análises brasileiras, sobre qualquer coisa, são assim agora. alguém é a dilma. alguém é o aécio. alguém é a marina. golpe turco, eleição americana, strangers things. tudo pode ser explicado pelo elo perdido que é 2014. vi até matéria dizendo que a marina é a hillary. claro que temos também matérias que nos explicam que nem tudo é 2014. anyway, continuamos falando de 2014).

Pra terminar. Eu queria dizer que acho que a direita tem apelos próprios. Não é tudo culpa da esquerda. E que acho que continuar pensando dentro desses parâmetros pode ser um erro. Mas eu não consigo evitar. E que eu acho que a esquerda não está acuada. O grande derrotado me parece ser o centro mesmo. Mas muita gente já acha isso. Talvez a diferença é que eu não acho que tudo está apenas polarizado. Eu acho que o centro está acuado. E que pode reagir. Pensei isso porque minha Amiga Gata (dscp) me perguntou se podíamos perder as esperanças, hoje de tarde. Falei que podíamos. Aí depois pensei que acho que há uma legião silenciosa e quieta. E que se ela reagir, podemos ter um pouco de esperança.
Uso desmonte e não desconstruçao por motivos óbvios. Há uma evidente vulgarizacão da desconstrução como método etc.

PS: achei a charge. postei depois por isso a redundância da explicacão.

Então, um dia, me mudei para Estocolmo

Mas o futuro que prevíamos, o qual não passava de um prolongamento do nosso presente (…) resultou em nada. Algo aconteceu, e de um dia para o outro me mudei para Estocolmo“. (Karl Ove Knausgård, A Morte do Pai)

Eu já fui fisgada por esse livro. E vou escrever sobre ele antes de acabar. Porque essa frase aí do começo bateu com tudo em mim. E depois o livro pega um caminho que eu acho que vai obliterar isso. O caminho que pega é que ele bebe. E não tem como eu não me identificar. Mas essa frase, no início, nossa. Eu fiquei muitos anos numa mesma instituição de ensino. E algo me incomodava. As pessoas diziam que era a estagnação. E eu me acostumei a pensar assim. Mas era mais. Era isso. Toda a expectiva que eu tinha de futuro era conseguir manter o presente.

Nesse sentido, Ituiutaba é a minha Estocolmo. Foi aqui que eu senti o futuro de novo. É interessante falar de futuro porque eu trabalho um texto de Santo Agostinho com os alunos. Na verdade é um excerto, bastante conhecido. Que ele diz que o presente não existe. Só futuro e passado. Mas não é verdade, né? O presente se torna com frequência nossa única expectativa de futuro. Eu não gosto. Prefiro o futuro.

Quando eu prestei concurso aqui, encontrei um colega, que eu já tinha encontrado num outro concurso, em Juiz de Fora. Um sujeito fora-de-série. Uma das pessoas mais agradáveis e interessantes com quem já cruzei. Estávamos no mesmo hotel (“onde nos mandou o google”, ele disse) e depois da prova saímos a pé para achar um bar. Na ocasião, ele estava otimista. “Esse concurso é nosso”, ele falou. Disse sentir que um de nós tinha passado. Ficou brincando com a cidade. “Vamos morar nesse prédio”. “Vamos comprar tomates nessa quitanda” e assim fomos caminhando até o bar. Impregnados de futuro. Tudo podia ser ainda. No bar, mais sério, ele fez o profeta. Disse que havia um risco. Que dali uns 10 anos a gente olhasse para tudo aquilo e pensasse “Mas que merda eu fiz com a minha vida? O que eu estou fazendo aqui?”. Eu que passei no concurso. E fiquei com o apartamento e os tomates. Ele passou em outro. Em outra federal mineira.

Além de profeta do futuro, ele também me contou uma história sobre o passado. Uma história que já contei no blog, e até queria repetir. Mas, né? É sobre futuro esse post. Não que o passado seja ruim. Muito pelo contrário. O que mata a gente, mesmo, é o excesso de presente.

 

 

Feio, feio, feio (A Amiga Genial 3)

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Naquela pegada “o meio é a mensagem”, devo contar logo que não li o livro. Eu ouvi o livro. O que me colocou numa posição esquisita. Geralmente eu ouço audiobook fazendo esteira. Mas esse não. Sentei e pus pra tocar. Daí tentei me distrair jogando joguinhos no automático ou lavando louça. Mas fiquei muito tempo mesmo sentada, escutando. Isso me colocou numa posição diferente. Porque eu geralmente me misturo com elas. Com a Lila e a Lenu. Mas dessa vez eu fiquei meio que assistindo. Eu amei esse livro. Apesar de odiar muita coisa que aconteceu. Eu ODEIO o Nino. Assim. Odeio. Acho um cuzão. Mas esse livro é muito bom. Porque conta o fundo do poço da Lila. E a capacidade infinita que ela tem de dar a volta por cima e, em seguida, se embrenhar de novo nas velhas teias. E é um livro do movimento da Lenu para uma vida bem sucedida. E o enorme “e agora?” que pisca em neon na nossa cabeça depois que tudo saiu como devia. E a gente não pode dizer que a Lenu volta pras velhas teias porque, plmdds, ela nunca as abandona.

Algumas coisas são tão fodas que merecem  um saloon’s sociology. O momento em que a esquerda começa a se organizar na metade do século passado. E a vanguarda intelectual coloca o operariado num lugar privilegiado. E a Lenu e a Lila são o operariado. Daí que o Paschoal surfa na onda. Começa a pegar as burguesinhas e tal. E as duas não tem qualquer ilusão. O momento maravilhoso em que a Lila resolve falar da experiência dela como operária. E a reação romantizada que se segue. É muito interessante. Essa idealização do povo é algo que foi tão percebido no período. Nas análises que temos do período. E que se repete. Uma coisa que sempre me irrita um pouco é ver a vanguarda deslumbrada com o povo. Eu vivo vendo. Você também, acho.

Mas melhor que o desabafo da Lila na reunião comunista. A Lenu vendo as intelectuais burguesas conversando. E falando gírias e palavrões. E se perguntando “por que elas querem falar como nós do bairro? Por que querem falar como putas?”. E se segue uma reflexão sobre o árduo caminho dela, Lenu, para aprender a falar o italiano, se livrar do dialeto. Foi o momento mais pujante do livro pra mim.

Gosto também que a Lenu quase “fez as pazes” com a mãe. Amo como o feminismo está entrando. Muito mais mulheres do que operárias, elas são. Acho que as duas já eram feministas, né? Intuitivamente. Adoro a abordagem da maternidade. Gosto de tudo. Menos do Nino.

E estou preocupada, claro, com a “onda” de violência e morte no bairro.

 

 

 

 

Abbas Kiarostami (1940-2016)

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“Eu não quero brincar, quero devolver o caderno”

Acho que essa frase, esse filme, não é apenas o início de uma aventura impossível. Devolver o caderno para um colega de escola (ameaçado de expulsão caso aparecesse lá sem caderno) que Ahmad, o protagonista, não sabe onde mora. Ela inaugura quase que um gênero cinematográfico. O meu favorito do final do século XX. O filme se chama “Onde fica a casa do meu amigo?“. E faz tudo aquilo que depois outros diretores* também ajudariam a consagrar. Eu me apaixonei tanto por cinema iraniano quando era mais jovem que até hoje tenho dificuldade de entender quem não gosta por achar “artístico demais” ou “lento demais”. São filmes tão simples. Tão bonitos. E que nos tiram o fôlego de uma maneira tão inesperada. Esse garoto aí, o Ahmad, sozinho tentando achar um lugar impossível. Assustando tão fácil. Sentindo esse senso de dever tão intenso.

Essa coisa de “filmes de criança” não é só uma opção artística. Esses diretores eram, de fato, financiados por um instituto com foco em crianças e adolescentes. Eu adoro demais. Acho que tudo já foi dito. Mas vou dizer de novo. Hoje é o dia, afinal. Abbas é tão cuidadoso de nos mostrar uma sociedade disciplinadora, com autoridades tradicionais. Mas que não dão conta dos problemas cotidianos e urgentes das crianças que vivem ali. Num mundo onde a rebeldia a la Os Incompreendidos não faz parte do repertório, uma outra coisa se insurge. Tão poderosa quando a rebeldia, aparece um tipo de solidariedade gentil e reservada. Uma cumplicidade entre os agentes. Uma desconstrução total daquilo que a gente imagina ser do “comunitarismo” do Oriente. Um esforço para ser um bom homem. Mas se  não der, o que se pode fazer?

Havia dois caminhos. Um certo: entregar o caderno. O outro, uma trapaça: fazer a lição do amigo e enganar o professor. Deus sabe o quando Ahmad tentou fazer o certo. Não fez (e não fez também por conta da gentileza, não quis ser desagradável com o velho que o ajudou).

Recomendo demais os outros filmes feitos para o instituto. Há curtas e médias. Tem tudo no Making Of.

Eu não curti tanto Através das Oliveiras. Mas adoro Gosto da Cereja. E amo Dez, um filme só de mulheres. Coloco os dois juntos porque fazem parte de um tipo também. Os filmes de carro, neles as confidências e aflições se dão dentro de um automóvel. Neles o protagonista busca a solidariedade de estranhos (Cereja) ou dá a sua solidariedade (Dez). Algumas cenas de Dez nunca mais saíram da minha cabeça. Uma vez li que o diretor fez uma coisa diferente de tudo em Dez. Uma atriz não sabia a fala da outra. Daí que os diálogos são uma surpresa. Não é mesmo fácil fazer cinema realista. Quem mais sabia morreu ontem.

*O mais famoso do gênero, Filhos do Paraíso (dirigido por Majid Majidi). E o meu favorito, O Balão Branco (que é dirigido pelo Jafar Panahi, mas tem roteiro do Abbas Kiarostami).

Os três filmes estão completos no Youtube, nesses links aí.

Por um momento pensar que você pensa em mim

sanfrancisco

Já falei disso com mais de uma pessoa. A dificuldade que estou/estamos de chafurdar na própria lama. Toda essa confusão institucional. Toda essa roubalheira. Ontem eu pensei que ia poder me dedicar à fossa. Chorar por amores perdidos. Não deu. Eu não sei como vamos sair desse momento. Em que o político se torna o pessoal. Porque há uma negligência, né? Da gente mesmo, ué. Nem mimimi de dia dos namorados temos mais. Aconteceu. Tinha gente que não relaxava com medo que o céu lhe caísse sobre a cabeça. Pois caiu. Mas a arte tem salvado todos nós, talvez. Hoje eu tive dois momentos maravilhosos. De ver como a vida é melhor do que isso que estamos vivendo. Uma pessoa na minha timeline postou um textão que começava assim. “Coisas que eu não entendo em Orlando“. E eu separei depois pra ler. Porque achei que era sobre o livro da Virginia Wolf. Que, né? Quem que entendeu? Então, rolo a timeline e uma pessoa sem conexão posta assim. “Sobre Orlando. Não consigo mais ler“. E eu, “caralho, por que tá todo mundo lendo Virginia Wolf?“. E aí me liguei, né? Durou uns 40 segundos isso aí. E foi o suficiente pra me deixar quase feliz. Daí fui ouvir a lista que o Spotify fez pra mim e apareceu Nana Caymmi. Que eu não ouvia há tempos. E bem essa música aí. “Não se esqueça de mim“. Que nem é minha favorita. E eu nem me lembrava que tem esse verso. Que, aí sim, é um dos meus favoritos.

Eu quero apenas estar no seu pensamento
Por um momento pensar que você pensa em mim

E aí consegui chorar. Queria ter chorado por mim. Mas acabou que foi por Orlando. Não o da Virginia Wolf. O outro.

Só pra registrar, então. As emoções individuais desse dia tão difícil.

 

Eu queria só odiar alguém

Eu adoro trabalhar aqui. Nunca tive problemas. Fora um dia. Porque meu curso tem menos professores que os outros (temos 7). E 250 alunos. E alguns cursos com alta evasão (tipo Física) tem cerca de 17 ou mais. Daí muitos reclamaram e abriram uma comissão para averiguar. E quem é o chefe da comissão? Um professor da Física. No relatório dele, quase morri. Na assembléia pública de leitura do relatório, fui além. Meti o dedo na cara dele. Tudo anda bem aqui. Menos esse cara. Que eu quero mais que se foda. Arrogante do caralho. Ensinou um tempo numa universidade alemã. E tem até hoje um pouco de sotaque. Argh.

Até que. Estou no boteco hoje. Tomando cerveja e fazendo miçanga. Só humanas. E esse cara chega sozinho. E se senta do meu lado. Alguém tenta nos apresentar. Ele se adianta. “Não precisa. Já batemos boca em muitas reuniões“. Não fiquei sem graça com a resposta dele. Achei engraçada de verdade. Ele se sentou do meu lado. Estávamos falando de terapia. Se esbaldou. Tem 56 anos, faz terapia desde os 24. Muita psicanálise. E um período longo de existencialista. Porque se apaixonou pela filosofia e lia demais. “Sartre?“, perguntei. “Não, não“, ele respondeu. “Sempre preferi Simone de Beauvoir“. Minha perna até bambeou. Testei. Ele leu mesmo. Perguntei d’ “Os dados estão lançados“, resposta do Sartre ao Einstein. Nunca leu, se interessou. Começou a falar de “A Náusea“. Ficamos mais de meia hora. Daí as pessoas saíram, ficamos nós dois. Vai ter paralisação na sexta, fora temer. Ele não vai aderir. É fundador do PT, mas acha que precisamos seguir adiante. “É golpe“, ele falou. Mas acha que é o de menos. Temer é um babaca, mas é o que temos. Ele morou muitos anos na Alemanha e desdenhou da repercussão. “Nosso descaso ambiental é o que pega mal“. Amei o pragmatismo dele. O fora dilma sem verniz. “Vamos colocar um milhão de empresários em fila e perguntar quem se melindra com golpe. Acho que uns 2“. Achei tão interessante essa sinceridade. Num tempo de malabarismo. O governo tem que mudar porque tem que mudar. Eu gosto de gente sincera e que respeita a minha inteligência. Que conversa boa, com flancos abertos. Falou da China e do endividamento da Caixa Econômica. “Ela fez um governo estúpido“. Comecei a gostar dele. Eu estava com uma amiga esquerdinha. Comentei. “Ele não é meu vilão“. Ela me respondeu o óbvio. Que vilões não existem. Eu já sabia. E falei “ah, é“.

História do novo sobrenome, Nadir Kfouri e Tieta do Agreste

Eu não sei se é melhor que o primeiro. Talvez seja mais “sociológico”. Nesse bom sentido, com aspas. Também tenho preconceito com sociológico sem aspas. Eu li enquanto participava de um Congresso. Que nem era meu. Era dos meus alunos, e eu fui acompanhá-los. Então, escutava palestras e debates e lia o livro. No Congresso e em Nápolis, ao mesmo tempo. Eu sou professora do curso de Serviço Social. Dou aulas para esse curso e mais nenhum. Tenho alunos de outros cursos porque eles vem até a nossa faculdade e matriculam-se. Sou a única que não é assistente social, no departamento. O Congresso discutiu os 80 anos da profissão. Nova, né? Então fala-se muito do próprio ofício e dos significados dele. Não somos sociológos, eles dizem. Nem psicólogos institucionais. O que somos então? Falou-se e falou-se sobre isso. E, talvez, essa história do sobrenome tenha me marcado pela discussão da identidade. Ou da impossibilidade de identidade. E de identidade matando subjetividades. Estou encantada com os significados de ser napolitano. O que é ser napolitano. E quando a Elena* sobe as escadas da casa nova da Lina. E sente o cheiro de alho. E diz que ser napolitana ajuda em Pisa (onde ela mora agora). Mas que ser pisana não ajuda nada em Nápolis. Não sei direito os significados das identidades na Itália (só o clichê norte/sul, eu conheço). Então gosto também de perceber os significados disso, no livro. Milão tão chique. Nápolis tão árida. Me lembrei de Bourdieu lendo o livro. Lembrei muito. E pensei que não conheço sociólgos italianos. Só Gramsci. Fui checar Ítalo Calvino e ele é de San Remo. Não sei o que significa nesse quadro (em relação a Nápolis). Um tio meu (que já morreu) quando ficava bravo dizia “eu sou da ponta da bota”. Insinuando que não levava desaforo pra casa. Ele era calabrês. Mas o livro não é sobre isso.

Mas é, de certa forma. Porque a Elena não consegue perceber de jeito nenhum que ser uma napolitana em Pisa enriquece demais. Ela fica perdida com a origem dela. E no espelho com a Lina, ela não vê contraste. Porque a Lina já não é. Foi soterrada por tanta identidade. Ser tão napolitana acabou por matá-la mesmo. E acho que é um pouco da angústia que a gente sente diante dos amigos de infância que simplesmente ficaram ali (geográfica e culturalmente). A gente que é do interior talvez sinta isso mais, eu não sei. Que nada saiu do lugar. A Elena chega em Nápolis e ouve as mesmas histórias, é uma repetição que vai ficando mais violenta e mais amarga. Ela se livrou. Não porque mora em outro lugar apenas, mas porque se livrou do fardo da identidade. Talvez nas cidades grandes isso se dissipe atualmente, mas penso em cariocas e baianos das capitais. E acho que há esse componente forte nessas duas identidades. É algo que também pode virar um fardo, mas aí no sentido da caricatura. Eu penso nisso já há algum tempo. Que cariocas não se movem. Aprofundam a identidade de maneira cada vez mais violenta e mais amarga.

O Serviço Social tem uma história de assistencialismo que se rompe em um momento específico (com data e local). E a profissão resolve adotar um referencial ético, metodológico e político marxista. Então há uma negação da origem. Mais. Há um desprezo que é verbalizado sempre que possível. Como era comemoração, havia pelo menos duas pesquisadoras que haviam participado desse início e contaram um pouco dessa história. Foram as melhores palestras. Uma delas quase me levou às lágrimas. Existe pelo menos um episódio da história do Serviço Social que importa para todos nós. Quando Nadir Kfouri, pioneira do Serviço Social assistencialista, enfrenta a força policial de Erasmo Dias, que obteve permissão para invadir a PUC-SP. Ela, reitora em 77 (ano da invasão), enfrenta os policiais e diz uma frase que se tornou histórica “na PUC só se entra pelo vestibular“. Essas histórias eram lembradas no Congresso, reverenciadas mas logo se sobrepunha a necessidade de abandonar essas memórias como constitutivas. A adesão ao marxismo marcada como ruptura. “Agora somos outra coisa“. E não somos. Porque isso nos empobrece demais, eu penso. Mas ver aquelas velhas senhoras mexendo nessas lembranças sem conseguir encaixá-las de fato na identidade da profissão, me emocionou muitíssimo. Uma delas, estudiosa justamente de identidade profissional, fez uma das melhores palestras que eu já vi na vida. A outra, contou a sua própria história, misturando com a história da profissão. Filha de um advogado de renome em São Paulo, capital, os irmão todos estudaram Direito. Ela, única mulher, foi ser assistente social. Um dia, num almoço de família, informou. “Eu sou materialista dialética“. Precisamente aí ela me levou às lágrimas. Havia um clima de comemoração, ela acabava de doar a biblioteca particular para a universidade etc etc. E anunciou, também, que era a última vez que falava em público**.

Sei que a cada volta da Elena ficamos em dúvida. Não sabemos se ela está mais pisana ou mais perdida. Ela afirma que está mais perdida, mas não temos certeza. Sempre que confrontada com as situações da nova vida, ela se sente péssima e arrependida. Mas os resultados são sempre muito bons, objetivamente. Mas a sensação de estar pensando coisas que não dela e vivendo uma vida que não lhe pertence é sempre forte. A Lila, por sua vez, precisou voltar para si ainda mais, se não quisesse desaparecer. E aí vemos mesmo a questão radical do desaparecimento se insinuando. Embora ela lute, coitada. A história do novo sobrenome parecia ser a da Sra. Caracci (sobrenome do marido). Mas não é. É a história do sobrenome de família, Cerullo, que ela resgata no final do livro. A volta para Cerullo termina da maneira mais triste possível. Com ela queimando as possibilidades que já teve sendo quem é. Eu odeio que o Nino sempre volta. Gostaria que ele desaparecesse. Durante o livro pensei que um aspecto da vida da Elena (Nino, Bruno, o balneário) se torna a coisa central da vida da Lila. Inclusive com Bruno*** sendo fundamental na volta da Lila Cerullo. Não queria que a Elena fosse tragada pelo Nino. Que encarna um pouco isso. De livrar-se de Nápolis mas continuar ali. Sempre na vizinhança. Nino também não escapou.

É mesmo um dos melhores livros que eu já li. Vou ler em inglês o próximo porque realmente não estou aguentando.

Muita gente reclamou do excesso de violência. As mulheres apanham demais mesmo. Mas gostei das texturas da resistência. E das traições entre elas. Achei lindo, complexo, cruel e feminista.

No Congresso, na mesa sobre movimentos sociais, apareceu uma questão que me fez bater no teto e voltar. Uma militante do movimento feminista negro falou sobre a lei de pensão alimentícia, que prende quem não paga pensão. Ela questionou. Porque, afinal, o homem negro da periferia é preso e cai no nosso sistema carcerário brutal. Eu espero sempre que o feminismo interseccional nos coloque em becos sem saída. Mas ver questionada a lei da pensão alimentícia, juro que não esperava ver. Talvez esteja até rolando esse debate, e eu que não acompanho. Fiquei quase chocada. Talvez até fique, quando passar minha tristeza. E vendo a Lila se fuder daquele tanto, com o filho pequeno, enquanto os machos seguem sua vida, no livro, fiquei pensando em quanto avançamos. Tava com isso na cabeça (eu lia o livro durante as palestras, como disse) e a moça me solta uma dessa.
*Acho que ela não é mais a Lenu, não queria que ela fosse.

**Eu espero que seja consenso entre as pessoas que lêem o blog que a abordagem assistencialista é algo do passado e que felizmente foi superada. Estou falando sobre como construir essas memórias e não insinuando que essa abordagem seja resgatada. Faço essa nota porque como estamos todos mais burros depois de 2014, sinto necessidade de me explicar.

***Aqui me lembrei do Bourdieu. Porque o pingo de capital social que a Elena passa pra Nina, essa agarra com força. Fumou até a última ponta esse fiapo de outra vida que lhe foi apresentado.

A melhor palestra foi da professora Maria Lúcia Martinelli. Quem me fez chorar foi a professora Maria Rachel Tolosa Jorge.

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